Quanto um carro perde de valor no primeiro ano e nos seguintes, o que faz um modelo desvalorizar mais que outro, com quantos anos de uso comprar e como consultar a curva do seu modelo na tabela FIPE.
Um carro é, para a maioria das famílias, o bem mais caro depois da casa — e, ao contrário dela, perde valor todo ano. Essa perda não aparece em nenhum boleto: só é sentida no dia da venda. Por isso ela é o custo mais esquecido de ter um carro, e muitas vezes o maior deles, maior que o combustível e o seguro somados nos primeiros anos.
Por que o carro perde valor
Parte da perda é desgaste: quilometragem, peças que envelhecem, garantia que acaba. Mas a maior parte, no começo, não tem nada a ver com o estado do carro. Um zero-quilômetro vira usado no momento em que é emplacado, e o comprador de usado não paga pelo que o primeiro dono pagou de margem da concessionária, frete e impostos embutidos no preço de fábrica. Depois disso, cada lançamento de nova geração, cada desconto de fábrica no modelo novo e cada ano a mais no documento puxam o preço dos usados para baixo.
A curva típica
A perda é forte no primeiro ano e vai amortecendo. Uma curva típica das tabelas de usados, para um modelo de desvalorização média comprado por R$ 100.000:
| Idade | Perde no ano | Vale no fim do ano | Do preço de zero |
|---|---|---|---|
| 1º ano | 18% — R$ 18.000 | R$ 82.000 | 82% |
| 2º ano | 12% — R$ 9.840 | R$ 72.160 | 72% |
| 3º ano | 10% — R$ 7.216 | R$ 64.944 | 65% |
| 4º ano | 9% — R$ 5.845 | R$ 59.099 | 59% |
| 5º ano | 8% — R$ 4.728 | R$ 54.371 | 54% |
| 6º ano | 7% — R$ 3.806 | R$ 50.565 | 51% |
| 8º ano | 6% — R$ 2.837 | R$ 44.442 | 44% |
| 10º ano | 5,5% — R$ 2.310 | R$ 39.688 | 40% |
Em cinco anos o carro perde quase metade do valor, e só o primeiro ano leva quase 40% dessa perda. Do décimo ano em diante a queda fica perto de 5% ao ano. É uma curva de referência, não a de um modelo específico: carros que seguram o preço podem valer 64% do preço de zero aos cinco anos, e os que perdem rápido, 45% ou menos.
O que faz um carro desvalorizar mais
- Pouca procura. O preço do usado é o que alguém aceita pagar por ele. Modelos muito vendidos, com peças baratas e mecânicos que os conhecem, têm fila de compradores; modelos raros, não.
- Marca com pouca rede. Concessionárias longe, peças caras ou demoradas e o risco de a marca sair do país pesam no preço de revenda.
- Segmento de luxo. O preço de zero inclui muita tecnologia e acabamento, que envelhecem rápido e custam caro para consertar fora da garantia.
- Nova geração ou desconto de fábrica. Quando o modelo é redesenhado, ou a montadora corta o preço do zero, os usados da geração anterior caem de uma vez.
- Elétricos e híbridos, por enquanto. A evolução rápida das baterias e da autonomia, e a dúvida sobre o custo de trocar a bateria, fazem os usados perderem mais do que os equivalentes a combustão.
- Histórico do carro. Quilometragem acima de uns 15 mil km por ano, cor pouco procurada, falta de revisões comprovadas, e principalmente passagem por leilão ou sinistro de seguradora, derrubam o preço bem abaixo da tabela.
Na outra ponta, picapes, utilitários e os modelos populares mais vendidos costumam segurar melhor o preço.
Com quantos anos comprar
Se a desvalorização é mais forte no começo, quem compra usado deixa a parte mais cara da curva com o primeiro dono. Pela curva acima, a partir do terceiro ano de uso — com o carro tendo dois anos — a perda anual fica abaixo da metade da do primeiro ano. É o ponto em que a queda acelerada já passou e o carro ainda é novo o bastante para ter pouca manutenção e, em muitas marcas, restinho de garantia de fábrica.
Ficar cinco anos com um modelo de R$ 100.000 zero-quilômetro custa R$ 45.600 de desvalorização. O mesmo modelo comprado com dois anos, por R$ 72.160, perde R$ 24.900 nos cinco anos seguintes — e ainda sobram R$ 27.840 que não saíram do bolso na compra.
Carros mais velhos perdem ainda menos por ano, mas a economia na desvalorização passa a ser pequena perto do que eles pedem em manutenção: pneus, suspensão, embreagem, correias e o risco de um conserto grande. Por isso o ponto de equilíbrio costuma ficar entre dois e quatro anos de uso, e não em carros de dez.
Como ver a curva do seu modelo
A tabela FIPE, publicada todo mês pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, dá o preço médio de venda de cada modelo, versão e ano. Ela é a referência que seguradoras, bancos e lojas usam. Para ver quanto um modelo desvaloriza:
- Consulte, no site da FIPE, o modelo e a versão exatos.
- Anote o preço do zero-quilômetro e o dos anos-modelo anteriores: um, dois, três e cinco anos.
- Divida cada preço pelo do zero. Se o de três anos vale 70% do novo, o modelo desvaloriza menos que a média; se vale 55%, mais.
Duas ressalvas. A FIPE é preço médio: um carro com quilometragem alta ou sem revisões vale menos, e um muito conservado pode valer mais. E ela não é o preço que a loja paga — na troca, a concessionária costuma oferecer de 10% a 20% abaixo da tabela, porque precisa revender com margem.
Desvalorização é custo, mesmo sem sair do bolso
Quem compara carros pela parcela ou pelo consumo deixa de fora o maior custo. Um carro que perde R$ 10 mil por ano custa, só nisso, mais de R$ 800 por mês — sem contar o que o dinheiro parado nele renderia investido. É essa soma que decide se trocar vale a pena. A calculadora de troca de carro compara ficar com o carro atual e trocar, com a desvalorização, os gastos e o rendimento do dinheiro, e mostra com quantos anos o modelo que você quer fica no melhor ponto de compra.
Como perder menos na revenda
- Faça as revisões e guarde as notas: histórico comprovado é o que separa o preço da tabela do preço abaixo dela.
- Prefira versões e cores mais procuradas, que vendem mais rápido.
- Venda a particular quando der tempo: a diferença para a oferta da loja costuma pagar o trabalho.
- Evite vender logo depois do lançamento de uma nova geração do mesmo modelo.
- Ao comprar usado, consulte o histórico de leilão e de sinistro antes de fechar negócio.