O que é o Fio B, sobre qual energia ele é cobrado, os percentuais da Lei 14.300/2022 de 2023 a 2029, quem continua isento, quanto pesa numa conta de luz de verdade e se a energia solar ainda vale a pena.
Quem instala painéis solares hoje não fica com a conta de luz zerada, e uma das razões tem nome: Fio B. Desde a Lei nº 14.300/2022, o marco legal da geração distribuída, a energia que o sistema manda para a rede e usa depois como crédito paga uma parte do custo da distribuidora. A cobrança começou pequena em 2023 e sobe todo ano até 2029. Entender sobre o que ela incide é o que separa um sistema bem dimensionado de um que rende menos do que prometeu.
O que é o Fio B
A tarifa de energia tem duas partes. A TE, tarifa de energia, paga a eletricidade em si. A TUSD, tarifa de uso do sistema de distribuição, paga o caminho até a sua casa, e se divide de novo: o Fio A cobre a transmissão, as linhas de alta tensão entre as usinas e as cidades; o Fio B cobre a rede da própria distribuidora — postes, cabos, transformadores, a manutenção, a operação e a depreciação desses equipamentos.
É uma fatia importante da conta. O valor muda por distribuidora e é revisto todo ano pela ANEEL, mas o Fio B costuma ficar entre um quarto e um terço da tarifa total com impostos.
O que mudou com a Lei 14.300
Até 2022 valia a compensação integral: cada kWh injetado na rede abatia um kWh consumido, com todas as parcelas da tarifa. A rede funcionava como uma bateria gratuita — e o custo de mantê-la ficava com os consumidores que não têm painéis.
A lei manteve a compensação, mas passou a cobrar de quem gera uma parte do Fio B sobre a energia compensada, numa escada anual:
| Ano | Parte do Fio B cobrada |
|---|---|
| 2023 | 15% |
| 2024 | 30% |
| 2025 | 45% |
| 2026 | 60% |
| 2027 | 75% |
| 2028 | 90% |
| 2029 em diante | regra definida pela ANEEL |
A partir de 2029 a cobrança passa a seguir uma valoração dos custos e benefícios da geração distribuída, feita pela ANEEL com diretrizes do Conselho Nacional de Política Energética. O valor ainda não foi definido. Para planejar um investimento de 25 anos, a hipótese prudente é supor a cobrança do Fio B inteiro.
Quem não paga
- Quem já tinha o sistema ou pediu a conexão até 7 de janeiro de 2023. Esses consumidores mantêm a compensação integral, sem Fio B, até 31 de dezembro de 2045.
- Quem pediu entre 8 de janeiro e 7 de julho de 2023 entra na cobrança, mas com uma transição mais longa, que vai até 2030.
Todos os pedidos posteriores seguem a escada da tabela. Ampliar um sistema antigo pode fazer a parte nova entrar na regra atual — vale perguntar à distribuidora antes de acrescentar painéis.
Sobre qual energia o Fio B é cobrado
Este é o ponto que mais confunde. O Fio B não incide sobre toda a energia que os painéis geram. A energia usada na mesma hora em que é produzida — a geladeira, o ar-condicionado e o chuveiro ligados durante o sol — nem passa pelo medidor da distribuidora, e não paga nada. Só a energia que vai para a rede e volta como crédito, abatendo o consumo da noite, paga o Fio B.
Uma casa em ligação bifásica que consome 400 kWh por mês, com tarifa de R$ 0,95 e Fio B de R$ 0,27, instala seis painéis de 550 W no Sudeste. Deles saem uns 409 kWh por mês. A casa usa 120 kWh na hora, e 230 kWh voltam como crédito para abater a conta. Em 2026 o Fio B cobra 60% de R$ 0,27 sobre esses 230 kWh: R$ 37,26 por mês. A conta cai de R$ 380 para R$ 84,76.
Na mesma tarifa, o Fio B dessa casa sobe para R$ 46,58 em 2027, R$ 55,89 em 2028 e R$ 62,10 com a cobrança inteira. Se metade do consumo acontecer durante o sol, em vez de 30%, a energia compensada cai para 150 kWh e o Fio B de 2026 fica em R$ 24,30.
Ainda vale a pena?
Na maioria das casas, sim. Mesmo com o Fio B inteiro, cada kWh compensado economiza a tarifa menos o Fio B: no exemplo, R$ 0,68 de cada R$ 0,95, ou 72% do que custaria. A energia usada na hora continua economizando 100%. Por isso um sistema do tamanho do consumo ainda costuma se pagar em poucos anos e render mais do que uma aplicação conservadora.
O que o Fio B mudou foi o custo do erro de dimensionamento. Crédito que sobra além do consumo não vira dinheiro — expira em 60 meses —, e cada painel a mais é investimento sem retorno. No exemplo, trocar o sistema de 3,3 kWp por um de 5,5 kWp por R$ 16.500 não baixa a conta em nada: deixa 332 kWh de crédito sem uso por mês e alonga o tempo para o sistema se pagar de menos de três para quase cinco anos.
Onde encontrar o Fio B da sua distribuidora
O valor está na resolução homologatória do último reajuste tarifário da distribuidora, publicada pela ANEEL, nos anexos que abrem a TUSD por componente — o Fio B da classe residencial (B1). A tabela vem sem impostos: para comparar com a tarifa da sua conta, aplique a mesma proporção de ICMS, PIS e Cofins que ela traz. Algumas distribuidoras publicam os componentes da tarifa no próprio site, e o atendimento também pode informar.
Como pagar menos Fio B
- Use energia enquanto há sol. Máquina de lavar, ferro, bomba da piscina e o ar-condicionado programado para o começo da tarde consomem direto dos painéis, sem Fio B.
- Dimensione pelo consumo, não pelo telhado. O sistema certo gera o consumo médio menos o mínimo da ligação (30, 50 ou 100 kWh). Mais do que isso só aumenta o investimento.
- Desconfie do orçamento “com folga para o futuro”. Se o consumo vai crescer — carro elétrico, mais um ar-condicionado —, é mais barato acrescentar painéis quando ele crescer do que pagar hoje por créditos que podem expirar.
- Baterias raramente compensam só pelo Fio B. Guardar a energia para a noite evita o Fio B, mas o preço das baterias ainda é alto perto do que ele cobra na conta de uma casa.
A calculadora de energia solar e Fio B faz essa conta com os números da sua conta de luz: quanto o Fio B vai custar em cada ano, o tamanho certo do sistema em painéis e metros quadrados, e se o investimento rende mais do que deixar o dinheiro aplicado.